segunda-feira, 29 de março de 2021

Os Anjos Têm Olhos Azuis



No princípio tudo estava escuro. Pequenos pontos de luz, quase como estrelas, viam-se ao longe. Estaria a ver o céu? Estaria deitado num prado relvado numa noite estrelada de verão? Algumas “estrelas” moviam-se lentamente e outras com mais velocidade… mas moviam-se sem dúvida. Estrelas cadentes? Tantas? O universo estava definitivamente vivo!
O negrume intimidador parecia até convidativo, sentia vontade de se juntar àquela dança de estrelas, de ser uma delas a vogar na imensidão. Sentia isso, mas não percebia o que sentia mais, havia uma leveza, uma ausência de algo… O seu corpo; percebia que mandava comandos aos dedos e depois aos braços e às pernas, mas não sabia se eram executados. Na escuridão absoluta, mexia os braços e as pernas e não tocava em nada. Não, não estava deitado no prado verdejante, antes flutuava naquela matéria escura, longe das estrelas. Flutuava? Caía! Uma sensação de terror percorreu o corpo que não sentia e arrepiou os pelos do pescoço que não sabia se estavam lá.
Agora estava… no fundo do mar? A sua visão ondulava, como que debaixo de água e havia pequenas fitas verdes, que partiam do chão coberto de seixos e areia dourada, agitavam-se, tentando libertar-se e fugir para a superfície. Vendo-as de perto, parecia distinguir rostos que apareciam e desapareciam em expressões de angustia ou simplesmente desespero. Por entre as fitas, passavam por vezes corpos escuros, como golfinhos luzidios e sorridentes, flutuando, nadando?
“Isabel?” O pensamento pareceu ganhar forma e solidez e como as sombras escuras, nadou para longe. Mas o que quer que fosse que o fez pensar naquele nome, não se fora embora e o rosto dela acudiu-lhe à memória, dolorosamente.
Uma das sombras escuras pareceu imobilizar-se à distância e observa-lo, por entre as ondulantes fitas verdes. Depois, nadou decididamente na sua direção enquanto se metamorfoseava numa mulher, de cabelos escuros e esvoaçantes. O corpo coberto por um diáfano vestido branco, ocultava-lhe os pés, que agora caminhavam. Toda ela era em tons de cinzento, sobressaindo da tonalidade azulada das águas e do verde das fitas entre eles.
“Luís.” A voz quente ecoou-lhe na privacidade dos seus pensamentos. “Vieste!”
“Como poderia não vir?” Ele achava que tinha lágrimas nos olhos, se eles existissem.
“Não devias!” A voz que o acariciava, repreendia-o. “Fiz-te muito mal, deixei-te...”
“Disse-te que o meu amor estava para além de tudo. Não podia deixar de vir.”
Ela “flutuou” em volta dele fazendo-o rodar sobre si próprio e reluzir fracamente, como um holograma. Encostou o nariz ao dele, focando os expressivos e brilhantes olhos azuis, a única parte que parecia manter-se colorida nela.
“Os teus olhos… tão azuis!” Ele suspirou mentalmente.
“Já eram azuis, assim continuam.” Ela afirmou pragmática.
“Todos os anjos têm olhos azuis?” Era mais um pensamento do que propriamente uma pergunta.
“Porque achas que sou um anjo?” Havia divertimento na interrogação.
“És bela como um anjo, flutuas… tens olhos azuis...”
“A beleza, é a dos teus olhos. Aqui somos todos iguais: simples sombras acinzentadas, vagueando numa tristeza morna. Libertos da prisão do corpo, mas presos numa decisão precipitada. São os teus olhos que me veem com amor e constroem aquilo que não se vê… como podiam os olhos serem azuis, num mundo onde o cinzento reina?”
“Mas há os teus olhos, azuis, as fitas verdes que se querem libertar do chão de areias douradas. A própria água é um azulado cristalino!” Ele contrapôs.
O rosto dela mascarou-se de uma tristeza momentânea, antes de brilhar novamente com esperança. Ergueu lentamente uma mão que usou para acariciar com suavidade o rosto de Luís, que se tornou sólido para receber o afago. E ele sentiu aquele toque suave e meigo, embora sem calor, mas igual a tantos outros, há tantos milhares de anos atrás.
“És um anjo sim!” Concluiu ele, de olhos fechados, com um sorriso beatífico. “Agora estou feliz.”
“Também estou feliz por te ver.” Os lábios finos dela arredondavam-se num sorriso subtil, mas os olhos tremiam numa tristeza profunda. “Fiz-te muito mal e gostava de te poder compensar… não sei se alguma vez conseguirei… Fiquei feliz por te ver, mas não pode ser assim!”
“Que dizes?” Todo o corpo dele começava a adquirir uma solidez igual à dela e os dois seres, cinzentos, flutuavam um em frente ao outro, de mãos dadas.
“Não pode ser assim.” Ela repetiu, afastando o azul dos olhos para se perderem no horizonte. “Ainda não é hora! Não podemos ficar juntos.”
“Porquê? O que se passa?” Havia alarme nos pensamentos fazendo tremeluzir as águas, pressentindo o desequilíbrio.
“Não é hora, simplesmente.” Ela soltou as mãos dele e afastou-se uns centímetros. “Tens de ir!”
“Não quero!” Ele insistiu, o corpo cintilando entre desvanecer-se e agrupar-se num corpo quase sólido.
O rosto dela endureceu por uns segundos mas rapidamente voltou a máscara do amor e os seus lábios estreitaram-se num beijo. No segundo seguinte, empurrou-o com violência e imprimiu forte o pensamento: “Vai!”
Foi de um salto só que ele caiu da banheira, de joelhos sobre o tapete da casa de banho, completamente encharcado e nu.
Chorando de dor e saudade, vomitou golfadas de água e comprimidos mal digeridos.






segunda-feira, 1 de março de 2021

A Estátua Infinita

   O poeta pensa na vida, na sua estranha imobilidade tensa. O pálido sol bate-lhe na cabeça, o vento abana os ramos do carvalho debaixo do qual pararam a sua cadeira de rodas. O poeta ainda é novo, como todos os poetas. O seu pensamento perde-se no infinito, longe do seu corpo atrofiado pela esclerose. Ainda sonha, ao contrário de muitos que abandonaram a luta. Cada dia é um novo dia. Regressa do infinito. Dá um toque no comando da cadeira, que se mexe exactamente cinco centímetros na direcção certa, e a estátua em que se transformou há dez anos mexe-se. Esboça um ténue sorriso. Uma criança passa a correr. Pára. Interroga-se sobre aquele estranho velho, sentado na cadeira, com as finas pernas amaradas uma à outra. O contraste é evidente e emociona o poeta. A poesia e o sonho são as únicas coisas que têm de comum. Imagina uma estrofe. A mais bela de todas. Nela se interliga a vida, o sonho e a vontade de viver. Um sonho infinito, tal como é infinita a vontade de ser. A criança desaparece. Sentado no seu pedestal, o poeta acredita mesmo que nunca terá existido. Não passa de uma miragem num deserto sem gente. 


    A sua atenção prende-se agora num jovem que se senta num banco de jardim à sua frente, a atenção dominada pelo seu telemóvel, num autismo voluntário. O mundo resumido a um rectângulo de 5” na diagonal. O poeta abana a cabeça. Rezaria pelas almas desatentas e pelos destinos perdidos, caso não se tivesse divorciado de Deus aos 15 anos, numa sexta-feira de chuva. O ateu é um triste solitário que só tem diálogos internos com ele próprio. Ouve música. Uma batida constante, irritante, neutra, intoxicante. Pum. Pum. Pum. A alma dilacera-se, desintegra-se a cada pum. Um casal senta-se ao lado do poeta. São pouco mais velhos do que o jovem que levanta o olhar para se fixar no decote avantajado da rapariga. Sempre há esperança, pensa o poeta. O namorado dela não gosta da brincadeira. Insinua uma cena, a rapariga acalma-o, o jovem faz um gesto apaziguador. Nada acontece. A música continua. O poeta percebe que vem da mochila do namorado da rapariga.  Não consegue pensar. Eles riem. Beijam-se. Acariciam-se. Para eles, o poeta não passa de uma estátua, não existe. Refugia-se novamente no infinito. Os ecos da música tornam-se efémeros, distantes. Estranhamente agradáveis. Ele está de pé. No infinito, o corpo obedece a todos os pedidos. A juventude é o infinito, percebe o poeta. Gostaria de conseguir falar para explicar ao jovem casal esta epifania, mas percebe, pelo silêncio, que eles já não estão lá. O poeta percebe que o jovem fixa o seu olhar nele. Vê-lhe o brilho da curiosidade. Há esperança, pensa o poeta, mais contente. 


    A menina regressa, com os pais. Faz uma festa ao passar pelo poeta. Ele sorri. Há algo de puro na infância que perdemos ao longo da vida. O amadurecimento é uma armadilha, um logro. A velhice uma fraude. A infância é a única fase das nossas vidas onde somos, realmente, nós próprios. 


    Viemos do pó e, no final, somos todos transformados em poeira cósmica. No infinito. 



domingo, 28 de fevereiro de 2021

A Promessa



Bruno conduzia a velha motorizada, em velocidade, a caminho de casa, na noite fria de inverno. O impulso que trazia era mais devido à inclinação da estrada do que propriamente pela potência do cansado motor. A ausência de receio nas curvas apertadas, essa, era devido aos copos de tinto que sorvera na tasca do Guedes, por entre as cartas da sueca e as anedotas porcas com amigos e colegas de trabalho. Na saca do almoço, presa na grelha traseira, seguiam duas garrafas de verde tinto, de beber e chorar por mais. Não seria a estrada serrana e as bermas compostas por penhascos de dezenas de metros, que haveriam de atrasar ainda mais o regresso ao covil onde habitava a sua Madalena. A adorada esposa, por estas horas, havia de estar a soprar fogo pelas ventas, com o retardo do marido, em dia de recebimento.

Cumpriram-se naquele dia quarenta e oito anos, que saíra do ventre prenhe de sua mãe, de onde haviam saído os outros sete irmãos em anos anteriores. Começara a trabalhar nas obras de construção civil aos onze. A família não podia manter quem não contribuía para o rendimento mensal, fortemente debilitado pelo consumo desregrado de tabaco e vinho do pater familias, também ele “mestre” trolha. Por isso, “deu com os lombos” a trabalhar nas construções, ao lado do pai, logo que terminou a escola primária. Estava-se nos últimos anos da ditadura não precisava de estudar mais. Não se pense por isso que o trabalho lhe fora facilitado, nunca esqueceu as “lambadas” que levava cada vez que se demorava a entregar o que lhe pediam, ou os dolorosos chutos nos fundilhos, que descarregavam a frustração do progenitor.

Agora, com estes agravos quase diluídos nos anos que se passaram, resolvera passar pela tasca, festejar e beber um copo com os amigos, depois de um dia muito longo. Bem sabia que prometera a Madalena não tornar a gastar na taberna o que lhes fazia tanta falta, mas que sabia ela das necessidades de um homem? "Reduzi aos cigarros e deixei de passar na tasca todos os dias, não deveria haver uma compensação de vez em quando? E afinal, para que servem as promessas, se não for para serem quebradas?" Argumentou para si próprio. "Se ela se puser com muita conversa, ainda vai enfardar uns tabefes."

Ruminava nestes pensamentos desde que saíra do estabelecimento, já noite, mais leve cinquenta euros, de cabeça pesada e ouvidos a zunir. O barulho irritante do motor da motorizada tornava-se quase hipnotizante, mesmo na estrada sinuosa e reluzente do gelo que se começava a formar nos pequenos fios de água que atravessavam o asfalto. O capacete parecia-lhe cada vez mais pesado e as pálpebras pareciam ficar coladas quando as fechava. Foi num ápice que sentiu o motociclo deslizar numa curva gelada e se viu, impotente, a rebolar para berma até se lançar no vazio.

Após uns segundos de incredulidade, tomou consciência da sua situação. Estava em cima de uma árvore seca, um velho castanheiro, debruçado sobre um barranco de mais de dez metros. Conseguia divisar a vegetação, no escuro, a acompanhar todo o declive até quase desaparecer de vista no fraguedo que o aguardava no fundo.

— Meu Deus! — Gemeu alto, aflito. A árvore estremeceu, ameaçando soltar-se e ele teve de agarrar-se com mais força.

Olhou o céu gélido, coberto de pequenos pontos luminosos, onde reinava o enorme disco prateado que parecia olhá-lo desdenhosamente, perfeitamente insensível ao seu drama. Olhou a toda a volta, em busca de uma solução para o seu problema, antes de se tornar a focar nas ominosas fragas que representavam, estragos muito dolorosos, se não mesmo a morte. O tronco onde se agarrava estremeceu de novo, avisando-o que tinha de arranjar uma solução urgentemente.

— Meu Deus! — Recomeçou, olhando o céu. — Minha Nossa Senhora de Fátima, pedi por mim a Nosso Senhor que perdoe as minhas faltas.

Como resposta, o castanheiro deu mais um sacão, soltando terra e algumas raízes, ameaçando colapsar a qualquer momento. Com uma lentidão exasperante, todo o tronco começou a inclinar-se para o vazio. Um verdadeiro réptil, Bruno rastejou sobre os ramos, procurando o corpo principal da árvore

— Eu prometo, Meu Deus! — Chorou, arrastando-se ao longo do tronco, tentando chegar às giestas que se eriçavam no declive. — Eu vou cumprir a promessa feita à minha Madalena. — Mais uns centímetros de inclinação, arrancaram a promessa final. — Eu deixo de beber, eu juro, eu prometo! Não volto a levar um copo aos lábios, Meu Deus, deixa-me voltar para a minha doce Madalena!

Ao invés de tombar de uma vez, o castanheiro encostou-se completamente ao declive, permitindo a Bruno agarrar-se com todas as suas forças à vegetação rasteira e iniciar a escalada para a salvação. Um enorme monte de terra saliente assinalava o local onde a raiz se libertara, deixando uma cratera. Na subida, teve de se esquivar das pedras e terra solta que parecia querer acompanhar a arvore na sua caminhada final.

— Obrigado Meu Deus! — As lágrimas, sangue e o muco do nariz, misturados com a terra, transformaram-no numa criatura de terror. Os cotovelos e os joelhos sangravam em manchas no vestuário. — Eu prometo, Meu Deus, eu prometo! — Arrastou-se, exausto, para a berma do asfalto e deitou-se no chão, a chorar desabridamente.

Cerca de um metro à sua frente, a pasta do almoço estava tombada e aberta, a marmita espalhara os restos do arroz misturando-os com o carmim de uma garrafa que se quebrara na queda. A outra, intacta, rebolara na sua direção.

Bruno sentou-se no chão e apanhou a vasilha, mirando-a com a saliva a formar-se na boca. Atrás e abaixo dele, o velho castanheiro devia estar a arrastar um pedaço da encosta, na sua agonia. Tirou a rolha, limpou o gargalo com a manga e deu dois grandes goles.

— Tendes de me perdoar Meu Deus. — Exclamou passando a língua nos lábios húmidos do néctar. — Preciso mesmo de uns goles… além do mais, eu prometi que não tornaria a levar um copo à boca, não uma garrafa.

Soltou uma gargalhada que ecoou no vale, mas foi a última, pois, no seu apego à terra onde nascera, o carvalho provocou uma enorme avalanche e metade da estrada foi arrastada, levando o perjuro para a sepultura, numa torrente de terra e pedras.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Acordar

 


Rosa mexeu-se debaixo dos cobertores. Manteve a cabeça coberta, não queria sair para o ar que sabia estar frio. Ainda estava meio a dormir e deixou-se estar a escutar os barulhos da casa: conseguia escutar os sons na cozinha, portas dos armários a fechar e talheres e pratos em movimento. A sua mãe deveria estar a preparar o pequeno almoço, bem quentinho, que ela devoraria num ápice. Depois sairia a correr para ir ter com a sua melhor amiga, despachando um veloz “Até logo, mãe!”. E as brincadeiras e correrias, mesmo quando tinha de ir à fonte buscar a água, nos tempos em que não havia canos que a trouxesse para casa. Mas essas eram memórias antigas, o tempo em que vivia com a mãe, o pai, o avô e a avó numa modesta casinha. Já partiram todos, envoltos nas brumas da memória, há tanto tempo…

Relutante, espreitou por entre a roupa, enfrentando a luz que inundava o quarto; aquela não era já a pobre habitação dos seus pais, mas a casa que construíram ela e o marido, com grande esforço. E agora, que os filhos já tinham seguido cada um o seu próprio rumo, parecia maior que nunca. Recolheu-se de novo para debaixo das mantas e esticou a mão para o outro lado da cama, vazio e frio. “Poderia ser ele quem estava na cozinha.”, pensou, tendo a noção de ainda não ter despertado completamente, “E daqui a pouco vem aí, ver se já acordei.” No sono semiacordado viu-se vestida de noiva, cercada da família de ambos, saindo da igreja num dia de sol… tantos que eram… e quase todos já deixaram este mundo também. Olhou a sua mão pálida e enrugada e teve a noção de que também ele, companheiro de uma vida inteira, se fora. Como todos os outros, não passava agora uns quantos fios que as Parcas fiaram e urdiram quando desenharam o seu destino, entrelaçado no dele.

A imagem do seu próprio rosto liso e pele macia, de longos cabelos negros ainda estava fresca na sua memória, quando a porta do quarto se abriu suavemente deixando espreitar uma sorridente senhora na casa dos cinquenta.

— Bom dia dona Rosa. — Exclamou a recém-chegada, melodiosa. — Então, não queremos acordar hoje? Já estou cá há um pedaço, mas estava a dormir tão bem, que não a quis acordar. Sente-se melhorzinha hoje? Vamos fazer a higiene e tomar o pequeno almoço?

Com esforço, Rosa sentou-se na cama e esfregou os olhos que fitou na imagem do espelho da comoda, mesmo em frente à cama: uma octogenária, rosto enrugado e cabelo revolto branco, sentada numa cama em desalinho, devolvia-lhe o olhar.

— Vem almoçar à cozinha? — A cuidadora insistiu.

— Sim, vamos. — Respondeu com as lágrimas nos olhos. — Mas tape-me esses espelhos, que eu não quero ver essa velha!


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Traição

 


Na penumbra da sala, reinava pesadamente o silêncio, apenas interrompido a espaços pelo crepitar do fogo na lareira. Lá fora o vento rugia, naquela temível manhã de janeiro, disparando gotas de chuva contra a vidraça.

Ele estava afundado no sofá individual ao pé da lareira, com os pés esticados sobre um pequeno banco e o olhar vidrado, perdido sobre o telemóvel que repousava na mesa de apoio. Estava já nos últimos anos dos quarenta, bastante magro e com olheiras profundas no rosto pálido. Os fios de prata no cabelo ondulavam à luz bruxuleante da chama. A sua mão esquerda brincava com o que parecia um pequeno cartão de visita.

Estremeceu com o súbito toque do telemóvel. Aquela melodia, escutada tantas vezes, trouxe-lhe memórias de ocasiões felizes... e outras nem tanto.

No ecrã do equipamento o rosto sorridente de um homem entre os trinta e os quarenta, de cabelos desgrenhados claros. O nome “Ricardo” piscava ao ritmo da música.

Após uns segundos de hesitação, ele soergueu-se, clicou para atender e encostou o telemóvel ao rosto. Do outro lado, uma voz grave e enérgica interpelou:

— Olá bom dia dorminhoca. Tudo bem?

— Bom dia... — A resposta foi rouca e arrastada. Do outro lado fez-se um silêncio, fruto da surpresa. — Desculpa, sei que esperavas a Sandra.

— Pois…, sim. Ela está? — A voz mudara de decidida para cautelosa.

— Não, ela não está. De facto, estava mesmo aqui a pensar se te deveria ou não ligar.

— Ligar-me?!? — Um tom de incredulidade. — Mas nós conhecemo-nos?

— Na verdade não e já agora, chamo-me Fernando e sou o marido da Sandra.

— Ricardo. — A resposta tardou um pouco. — Mas continuo sem perceber...

— Bem sei. — Um sorriso cansado perpassou nos seus lábios, algo divertido. — Queria ter uma pequena conversa contigo, não te importas que te trate por tu, pois não?

— Como disse, não nos conhecemos, mas não, não me importo.

— É verdade, não nos conhecemos, mas temos uma coisa muito importante em comum... a minha mulher Sandra.

A afirmação soou como um tiro e provocou um longo momento de silêncio nervoso

— Como? Não estou a perceber. — Era uma patética tentativa de ganhar tempo. — Que quer dizer com isso? A Sandra sabe que está a falar comigo? Que é que ela lhe disse?

— Não adianta negar. — O sorriso alargou-se. — Eu sei de tudo: os encontros nos motéis, os jantares, os passeios nos jardins... até mesmo a conferência há dois meses em Londres... — Não se ouvia o respirar do outro lado da linha. — … de todas as formas, não te posso censurar. Ela é uma mulher muito bela e inteligentíssima, uma combinação irresistível.

— Mas... quando soubeste? — Rendeu-se, percebendo que não adiantava negar.

— Oh, já sei há muito tempo. Quase que posso dizer desde o início.

— Não posso crer... e não disseste nem fizeste nada? — Ricardo tentou passar ao ataque. — Há quanto tempo achas que aconteceu?

— Deverá fazer dois anos em Março. Estou certo?

O silêncio do interlocutor era o assumir da culpa.

— Inicialmente não me apercebi de nada, claro. Pelo menos, nada que me fizesse suspeitar disto. — Fernando continuou. — De repente, a relação morna de um casal da nossa idade com muitos anos de casamento, tornou-se muito mais ativa sexualmente. Como já não era há muitos anos. — Limpou uma lágrima que correu no rosto. — Ela procurava-me mais frequentemente e não se negava tantas vezes aos meus “avanços”.

A chuva parara, entretanto e o latido de um cão ouviu-se longe, trazido pelo vento que amainava.

— Eu estava feliz, ela estava feliz, como poderia suspeitar? Nem reparava nas frequentes trocas de SMS, no falar mais baixo ao telemóvel em algumas circunstâncias... estava cego. — O suspiro que se seguiu saiu mais audível do que pretendera. — Até que um dia, ela chegara a casa mais tarde que eu. Estava a tirar as coisas da carteira e vi que trazia amarrotado um pano negro... onde consegui divisar pequenas rendas. Mesmo depois da sua atrapalhação em esconder, fiquei sem qualquer dúvida que trazia na carteira as calcinhas que vestira naquela manhã... Porque traria ela as calcinhas amarrotadas na carteira? Porque as tiraria?

— Há milhares de outros motivos para além de... — Ricardo tentou defendê-la.

— Pois há. Por isso não poderia ficar com a dúvida. Ela disfarçou e escondeu... e eu fingi não ter reparado.

— Ela deve ter pensado que não viste... — Pareciam dois amigos a conversar.

— Mas vi. E, louco de dor e confusão, andei atento a todos os seus movimentos, atitudes e horários... que cada vez aprofundavam mais as minhas suspeitas. Até que um dia, à hora do almoço, fui para a rua em frente à escola onde ela trabalhava e esperei. Não tardou que a visse... que vos visse juntos.

— Sim, encontrávamo-nos ao almoço muitas vezes.

— Para saber a extensão “do problema”, contratei uma pessoa para a seguir durante uma semana e dar-me um relatório; com isso fiquei a saber mais do que queria: o relatório era extenso o suficiente para incluir fotos, horários, os motéis e restaurantes que frequentavam e a altura aproximada em que começaram a ser vistos juntos. Um bom trabalho em suma.

— Nunca nos apercebemos de nada...

— Como eu disse, um bom trabalho. Mas o que me deixava louco era a sua naturalidade, a facilidade e o prazer com que fazíamos amor, a sua vontade e carinho. Parecia que continuava apaixonada por mim...

— E continuava. Ela disse-mo várias vezes. Sempre que lhe pedia para te deixar e vir viver comigo. Nunca o quis, dizia que te amava demais para poder viver sem ti e que o que existia entre nós era uma paixão que ela esperava que passasse um dia.

Foi a vez de Fernando ficar em silêncio por uns minutos. Ambos os homens calados a escutar a respiração do outro através do éter.

— Por fim acabei por me conformar. — Fernando retomou a narrativa. — Aceitei que ela seria discreta o suficiente para não me envergonhar e aceitei que deveria apreciar cada minuto da sua atenção, cada beijo e cada carícia, como dádivas que poderia perder a qualquer momento.

— Foi precisa muita coragem para uma decisão dessas.

— Não, não foi. Muita covardia isso sim, medo de ficar sem ela, sem a mulher que amo. Medo que se fosse e não tornasse mais. A vida sem ela seria insuportável. Mas nos últimos tempos é assim que tem sido mesmo com ela, insuportável.

— Daí esta chamada. — Ricardo sentenciou. — Concluíste que não consegues viver assim e vens pedir-me que me afaste.

— Serias capaz?

— Se isso for o melhor para ela... sim. — Suspirou audivelmente. — Também vou sofrer imenso. Deixei a minha mulher há uns meses, achando que facilitaria a decisão da Sandra, mas ainda não lhe disse que o tinha feito.

— Temes pressioná-la?

— Sim, ela é adorável, mas sob pressão é imprevisível. — Sentiu-se o sorriso na voz.

— Consigo perceber que também a amas, não se trata apenas de um caso.

— Não, não é. Desde o início, desde o primeiro riso, as primeiras palavras, fiquei completamente preso a ela. Julgava que depois de uma certa idade já não era possível uma paixão com tal intensidade.

— E aqui estamos nós os dois... apaixonados pela mesma mulher.

— Não tenho coragem de continuar a fazer-te o mal que temos andado a fazer. Até aqui achava que não sabias...

— Que era um corno feliz...?

— Não, nunca pensamos, pensei, em ti nesses termos. Eras apenas o outro que a impedia de vir para mim de vez.

— Agora não interessa mais, não vale a pena estarmos a discutir sobre isto.

— Que se passa? Zangaram-se? — Ricardo não conseguiu disfarçar a esperança.

As lágrimas corriam agora livremente pelo rosto de Fernando.

— Não, caro amigo, a Sandra teve um acidente de automóvel na noite passada, quando regressava de tua casa. Faleceu de madrugada no hospital... O funeral é às 9h de amanhã e o corpo encontra-se na capela do hospital. Se quiseres podes aparecer... todas as pessoas que a amavam são bem-vindas.



domingo, 29 de novembro de 2020

Expiação


A extensa nave da igreja encontrava-se em semipenumbra. Apenas a luz do luar se coava preguiçosamente através da claraboia setecentista, muitos metros acima. Todo o espaço estava repleto de sombras e as imagens dos santos e mártires, imobilizadas no seu mutismo eterno, eram testemunhas e guardiões do silêncio.

O padre Ramiro, rondando os sessenta anos, assomou à porta que conduzia à sacristia, antes de se mostrar completamente. Envergava um pijama e roupão e calçava uma chinelas de tecido, surradas. Estava já deitado e dormia a sono solto, quando uma urgência, que não sabia bem explicar, o fez levantar-se, deixar a cama e vir até à igreja.

Na segunda fila de assentos, divisou o vulto ajoelhado, rosto escondido entre mãos implorantes. O silêncio intimidante, impunha-se pesadamente.

Após um minuto de hesitação, o sacerdote soprou uma pequena coluna de vapor e apertou mais o roupão, para se defender do ar gelado que repousava no templo. Arrastou as chinelas até junto do vulto e, com um profundo suspiro, ajoelhou a seu lado, imitando a pose implorante, frente ao altar.

O estranho levantou a cabeça ao perceber o recém-chegado. Aparentava uns trinta anos e tinha o cabelo comprido e desgrenhado e a barba negra e crescida, quase tapando o rosto pálido e macilento, onde brilhavam dois olhos pequenos, cor de carvão.

— Também tem pecados a expiar, padre? — Grasnou o homem, ecoando na nave.

Surpreendido, o sacerdote fitou o inusitado companheiro.

— Todos somos pecadores, meu filho. — Esclareceu-o ele. — Todos cometemos pecados, uns mais graves que outros. O importante, é a forma como lidamos com eles. — O estranho olhou-o pensativamente, avaliando-o e sopesando as suas palavras, enquanto o padre continuava. — Temos de reconhecer que erramos e devemos pedir perdão a Deus por eles. Teremos de prometer que tudo faremos para não voltar a pecar.

— E se o pecado não tiver perdão? — O outro insistiu.

— Todos os pecados têm perdão! — O sacerdote foi perentório. — Há pecados mortais, é certo, mas a misericórdia de Deus é infinita e até o mais vil dos pecadores, terá uma oportunidade, se se arrepender do fundo do coração.

— O meu pecado não pode nunca ser perdoado. — O homem fez um esgar amargo.

— Já disse, Filipe, que Deus pode perdoar todos os pecados. — O padre Ramiro reafirmou.

— Como sabe o meu nome? — O estranho estremeceu, muito sério.

— Conheço-te há muitos anos… — Uma lágrima refulgiu nos olhos do sacerdote. — Não me reconheces mesmo?

O chamado Filipe pareceu incomodado com a pergunta e levantou-se, dando uma volta sobre si mesmo, hesitante. Passou a mão pelo cabelo e cofiou a barba fitando o interlocutor com intensidade. Por uns segundos, um pesado manto de silêncio pesou entre os dois; um, em pé, recurvado e o outro de joelhos no suporte do banco da igreja.

— Devia reconhecê-lo? — A voz do estranho tremia, como que acometido do frio, que há muito mordia o padre.

— Não só a mim, como todo este templo, onde estiveste tantas vezes… — Acusou o ministro da igreja.

— Sim, venho aqui de vez em quando… pedir perdão pelos meus pecados… — Filipe arrastava a voz, puxando pela memória.

— E sabes quais foram os teus pecados? — Ramiro sentou-se, observando-o. — Recordas o que tanto precisas que te seja perdoado, que te não deixa descansar e te traz aqui amiúde? Tiveste sequer a noção de quantas vezes me ajoelhei, como hoje, ao teu lado a rezar? Em todas essas vezes nunca me falaste, porém, talvez não estivesses preparado.

O estranho parecia cada vez mais perturbado e acenava negativamente com a cabeça enquanto balbuciava: “Não me lembro…”

— Há quase quarenta anos, entraste nesta igreja com uma mulher sem vida nos braços. — Lembrou o sacerdote. — A mulher que nós amávamos!

— Armanda! — Filipe apertou as mãos contra a boca, o rosto retorcido numa máscara de dor. — Fui eu! Oh, meu amor, fui eu quem a matou! — Depois, num súbito reconhecimento, fitou padre nos olhos. — Ramiro? És tu, Ramiro? Estás tão velho!

— Passaram-se muitos anos, querido irmão. — As lágrimas assomaram com força aos olhos do ancião.

— Perdoa-me, meu irmão! — Implorou o outro atirando-se ao chão, quase junto aos pés do sacerdote.

— Eu é que te peço perdão, por ter permitido que ela se aproximasse de mim, depois de estar casada contigo. Peço perdão a Deus todos os dias, por ser o causador de toda desgraça que nos atingiu. — O padre enclavinhou as mãos numa oração. — Amaldiçoo-me eternamente por me ter deixado possuir por aqueles belos olhos, durante as férias do seminário em tua casa.

— Eu não podia suportar! — Gemeu Filipe, caminhando até ao meio da igreja, no espaço entre os bancos e ajoelhando no tabuado, em pranto. — Foi aqui que a deitei, depois de a ter estrangulado no carro! Eu não queria matá-la, mas não podia suportar que a mulher que eu mais amava no mundo me trocasse por outro homem… ainda que fosse o meu próprio irmão!

Com visível esforço, Ramiro aproximou-se e ajoelhou no chão, junto do outro, os olhos cheios de lágrimas: “Perdoa-me!”, gemeu.

Os dois, ajoelhados no soalho, não passavam de sombras na vastidão da nave do templo.

— Achas que Deus me perdoa? — Ao fim de uns segundos, Filipe estendeu as mãos para o padre. — Achas que ela me pode alguma vez perdoar? E tu, meu irmão, perdoas-me?

— Alguma vez Lhe deste essa possibilidade? A qualquer um de nós? — O sacerdote rouquejou. — A tua solução foi atirares-te ao rio e desaparecer para sempre. O teu espírito vagueou sempre por aqui, incapaz de assumir o mal que fizeste, escondido do julgamento, assim como de qualquer forma de perdão.

Aparentando agora ter mais quarenta anos às costas, Filipe ergueu-se a custo, com os olhos rasos de lágrimas fitos no chão onde em tempos repousou a mulher ambos amaram. Soluçou audivelmente e pousou a mão direita sobre o coração.

Ramiro chorava com ele, mas engoliu em seco e o seu rosto tornou-se uma máscara cheia de majestade e levantou-se apoiando-se nas costas do banco mais próximo. Ergueu os dedos indicador e médio da mão direita, numa autoridade que o seu cargo lhe permitia, enquanto sentenciava “Ego te absolvo, in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen”.

Filipe, atordoado, cambaleou na direção da porta que levava ao exterior da igreja e que abriu de par em par. Uma onda de luz imensa ofuscou todo o espaço, rebrilhando no ouro dos altares, iluminando os rostos tristes das imagens neles contidas, ressaltando nos cristais dos candelabros e nos vitrais das janelas, como uma onda de esperança que Ramiro, tombando de joelhos no meio do templo, recebeu de braços abertos.

Foi de manhã bem cedo, que a equipa de limpeza encontrou o velho abade da freguesia, tombado no soalho frente ao altar. Aparentemente, sofrera um ataque fulminante que lhe levara a vida, antes mesmo de se aperceber do que estava a acontecer, pois o seu rosto exibia um sorriso, sinal de que partira em paz.



Manuel Amaro Mendonça

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Por Causa da Outra


"Qualquer coisa se perdeu, quando o Paraíso perdido se ganhou."

 

Fernando Pessoa. 

Caminhando pelo trilho, sem pressas, uma jovem mulher de pele morena, quase dourada e longos cabelos loiros, que lhe chegam à cintura. Os seios desnudos, bamboleiam-se, exibindo as áureas rosadas com naturalidade e o baixo ventre está apenas decorado com uma penugem dourada. Os pés descalços calcam sem receio as folhas da vereda. Seu nome era Eva e estava nua, mas isso era natural, pois fora assim que viera ao mundo.
A floresta luxuriante, plena de cor, tem os caminhos perfeitamente demarcados e limpos, para que não seja necessário calcar as ervas ao caminhar. As árvores descem graciosamente os seus ramos, quase até ao chão, para que seja possível colher os seus frutos ou as folhas, sem ser preciso subir-lhes. Coelhos e outros roedores de tamanhos diversos atravessam os caminhos para se ocultarem novamente na vegetação do outro lado. O sol atravessa as copas das árvores e dá a todo o ambiente um tom dourado, como que de um outono bem-vindo após um verão quente.
Certificou-se que não a seguiam, antes de abandonar o carreiro e penetrar profundamente no arvoredo até à figueira que costumava visitar para se deleitar com os seus frutos.
— Olá! — Cantarolou um melro de um ramo alto.
— Olá! — Respondeu ela numa voz acriançada. — Está um lindo dia, não achas?
— Sim. — Concordou a ave. — Como aliás o de ontem, anteontem e de sempre, desde que me conheço. Aborrecido.
— Também me queixo do mesmo. — Concordou ela, de expressão contristada. — Mas de vez em quando, venho por aqui…
— …aos figos? — Adivinhou a ave.
— Sim, também. — Eva sorriu. — Mas foi ao pé da figueira que encontrei outra mulher e…
— A outra?!? — O animal agitou-se. — Mas não és só tu e o Adão por aqui?
— Sim. Também achava que sim, mas depois encontrei-a e tornamo-nos amigas.  — Explicou ela. — Vou agora ver se a vejo.
— Vou contigo. — O pássaro esvoaçou para o ombro dela, onde pousou com suavidade e sem apertar as garras afiadas.
Eva recomeçou o seu caminho, afastando os ramos mais baixos, até chegar a uma pequena clareira onde estavam duas figueiras baixas, os ramos plenos de frutos verdes e avermelhados, cujo aroma fazia crescer água na boca de quem os via. Mesmo ao lado, sentada numa pedra, estava outra mulher, de cabelos vermelhos, amarrados num rabo de cavalo que lhe descia pelas costas. Era morena e voluptuosa. Os seios estavam cobertos por uma pele de coelho e à cinta trazia o que parecia ser outra de raposa, que lhe descia graciosamente entre as pernas.
Assim que entraram na clareira, o pássaro levantou voo e foi-se embora, a tratar dos assuntos próprios dos melros.
— Olá querida Eva. — Cumprimentou a mulher sentada, exibindo um sorriso rasgado. — Esperava-te.
— Olá Lilith. — Saudou a recém-chegada, confundida com a intempestividade da partida do companheiro. — Esperava encontrar-te.
— Não disseste ao Adão que me viste, disseste? — A mulher ficou séria.
— Não, não disse nada. — Asseverou Eva. — Ele anda lá para os prados junto ao rio, a cavar; cismou que há de fazer crescer plantas, como o nosso Senhor.
— Passa a vida a inventar coisas para fazer. — A outra fez uma expressão de desdém mal dissimulada. — Em vez de se questionar sobre o que há fora daqui.
Fora daqui? — Eva ficou curiosa. — Para onde vá, só vejo as mesmas árvores, com e sem frutos, os mesmos animais simpáticos e faladores. Às vezes vejo um ou dois vigilantes, mas é raro.
— A saída fica um pouco longe… não a encontras com facilidade. — Afirmou Lilith. — Não querem que a encontres. Deves sentir-te bem nesta prisão… se não souberes o que é uma prisão.
— Mas o que é uma prisão? — Eva interrogou, confundida.
— É um sítio de onde não te deixam sair.
— Mas ainda não encontrei sítio nenhum onde não pudesse ir.
— Podes mesmo? E a árvore dos frutos luminosos? — Lembrou a ruiva.
— Podemos ir lá… — Concluiu Eva pensativamente. — Não podemos é comer dela.
— E isto porque nem sequer te aproximaste dos portões de saída, senão então é que era! Apareciam-te logo os vigilantes a perguntar o que fazias ali e a pedir-te delicada mente que te afastasses… até te empurrarem, se não fizeres o que te mandam. — A ruiva fez uma expressão zangada.
— Então não conseguiste sair?
— Eu?!? Claro que sim! Quando meto uma coisa na cabeça, não é fácil de sair. — Ela fez uma expressão de triunfo. — Atravessei um dos rios e tenho vivido lá fora, numa das cidades que eles tanto odeiam, onde o meu filho é rei. No princípio, ainda me perseguiram e tentaram apanhar-me, mas depois desistiram.
Eva estava boquiaberta com as maravilhas que aprendia sobre as cidades que existiam fora da quinta que ela não imaginava existirem.
— Mulher! — Uma voz masculina fez-se ouvir. — Onde estás, mulher? Eva!
— Vem aí o bruto do Adão! — Anunciou Lilith, levantando-se e afastando-se. — Vou-me embora. Vemo-nos aqui outro dia! Não digas que me viste!
— Aí estás tu! — Um homem completamente nu, de cabelo castanho escuro desgrenhado e uma barba rala quase loira surgiu na orla das árvores. — Como vieste esconder neste sítio? — Vários esquilos surgiram no chão e nos troncos das árvores para espeitarem a causa do alvoroço.
O melro regressou ao ombro de Eva.
— Não me escondi. — Desculpou-se ela. — Estava aqui a pensar.
— A pensar! — O homem riu-se. — Não faças isso, que ficas com a testa enrugada! Não estragues a tua cara bonita. — Coçou as partes íntimas, ruidosamente, mergulhando a mão na enorme mata púbica e agitando o pénis flácido.
— Não gosto nada quando fazes isso. — Censurou ela com uma careta de desagrado. — Nem que andes para aí com isso pendurado, como um animal qualquer.
— E que tem? — Adão indignou-se e apontou-lhe ao peito. — Não andas com essas coisas aí penduradas também?
— E eu disse-te que gosto? — Atirou a mulher, revoltada. — Parece-te que tive escolha?
Furiosa, dirigiu-se a uma planta rasteira que espalhava as descomunais folhas verdes pelo chão e arrancou-lhe umas quantas. Depois, aproximou-se de um salgueiro que derrubava os seus ramos esguios, mas resistentes, para o solo e despojou a árvores de alguns deles. Assim equipada, fez um entrançado das folhas e prendeu-as grosseiramente umas às outras com os ramos do salgueiro. Fez uma espécie de túnica para ela e um saiote para ele.
Adão observou toda a atividade num silêncio surpreendido.
— Não sabia que conseguias fazer estas coisas… — Comentou ele, mirando-se, agradado.
— Há muita coisa que tu não sabes… e pensas que sabes! — Afirmou ela, mordaz. — Agora anda comigo.
O homem não sabia o que dizer. Estava habituado a ser ele a mandar e ela a obedecer sem protestar, como o senhor lhes tinha dito para fazerem quando se conheceram. Esta mulher era muito diferente da outra que tivera antes, que era uma fonte de problemas e discussões. Era menos fogosa, é verdade, mas mais meiga e submissa… até este momento.
Eva puxou Adão pela mão e guiou-o pelo trilho calcado entre as árvores e ele deixou-se guiar, não sem sentir uma ponta de apreensão.
Mais à frente vinha um lobo a trotar pelo caminho.
— Olá meninos. — Exclamou o canídeo, medindo-os de alto abaixo. — Que é isso tão verde em cima de vós?
— Parece que são roupas... — O homem não estava muito seguro, enquanto continuava arrastado pela fêmea.
— É estranho, mas ao mesmo tempo agradável. — Comentou o lobo farejando o ar em volta deles. — Se soubesses a inveja que vos tenho, por vocês terem mãos e poderem fazer essas coisas maravilhosas e eu não… mais do que inveja é admiração. Onde ides afinal?
Como não obtivesse mais resposta dos dois, decidiu segui-los.
Estavam a chegar a uma enorme clareira dominada por uma descomunal árvore de frondosos e altos ramos, decorados com frutos vermelhos que reluziam e piscavam, envolvendo o ambiente numa luz colorida e irreal.
— Que queres tu daqui? — Perguntou Adão a medo.
— Quero que me dês um fruto destes! — Exigiu ela.
— Estás louca? O senhor disse que podíamos comer de todas menos desta!
— E porquê? Que está ele a esconder? — Ela pôs as mãos na cinta. — Sabes porquê? Porque é um guloso e quer os melhores só para ele.
Do outro lado da clareira, ocultos pela ramagem, Lilith piscou o olho a uma enorme e bela serpente colorida, coberta de escamas reluzentes como diamantes. Como que acatando uma ordem, o réptil subiu facilmente pela árvore e deixou-se ver entre os ramos.
— Serpente! — Chamou Eva. — Atira-nos um fruto desses.
— Destes, desta árvore? — Sibilou o réptil. — Não posso fazer tal. O Senhor não vos disse que não podeis comer deles?
— Mas eu quero saber porquê. — Insistiu ela. — Tenho de provar!
— De qualquer forma, estes frutos não são normais. — Explicou a serpente. — Só pode comer quem os apanhar, por isso, não posso ajudar-vos. Mas se os provarem, não vão querer outra coisa. Ficarão muito mais sábios e perceberão que a vida não é só andar a vaguear na floresta, por entre animais amestrados.
— Quem é amestrado? — Rosnou o lobo, a quem ninguém respondeu.
Eva começou a atirar pedras aos ramos com intenção de acertar nos frutos e Adão, incentivado pela conversa, imitou-a. A serpente estimulava-os a ambos com "Está quase!" ou "Ah, falhaste por pouco!"
Quando as primeiras pedras começaram a tombar caoticamente no chão em volta, o lobo achou melhor afastar-se um pouco, para ver a cena de longe. As aves de todas as árvores em redor levantavam voo apavoradas e vários ratos fugiram do tronco da árvore.
— Que estão a fazer, seus idiotas! — Gritou um dos roedores para Adão. — Vou fazer queixa ao Senhor!
O homem ergueu um pé para o chutar, mas o rato esquivou-se agilmente, para logo encontrar a mulher a cortar-lhe o caminho. Bufou e ameaçou-a com os dentes arreganhados fazendo-a acovardar-se, pois nunca tinha visto uma animal a fazer aquilo. O fugitivo saltitou agilmente pelas folhas que atapetavam o solo, até desaparecer de vista.
Adão retomara o exercício de tiro e conseguiu por fim acertar num dos frutos que se estilhaçou, literalmente, no chão, após uma queda vertiginosa.
— Ah! Esqueci-me de avisar, têm de apanhar os frutos antes de chegarem ao chão! — Riu a serpente, perante a desolação deles.
Os dois humanos retomaram as pedradas e mais frutos caíram e se estilhaçaram, antes que os conseguissem agarrar. Nenhum deles reparava que a luz da árvore dos frutos luminosos parecia alterar-se e o ar estava a ficar amarelado e doentio. Tirando o barulho que os três faziam, toda a floresta estava agora no mais profundo silêncio. Até que, por fim, Adão lançou-se num voo e conseguiu agarrar um fruto reluzente, antes que este tocasse o chão.
— Bravo! — Gritou o réptil do alto dos ramos.
Eva atirou-se por cima do homem e ferrou uma feroz dentada no fruto, ainda na mão dele e, depois de o saborear, beijou Adão lubricamente na boca, partilhando o sumo doce da sua conquista.
Naquele momento, a luz tremeluziu e encolheu-se, como se o sol se eclipsasse repentinamente. Os dois humanos assustaram-se, olhando em volta e aperceberam-se do foco de luz que se projetava do céu, mesmo no centro da clareira. Ali se materializou um enorme homem de cabelos despenteados brancos e barbas eriçadas da mesma cor. Vestia uma alva túnica comprida, debruada a ouro nos punhos, no pescoço e na bainha.
— Que estão a fazer, infelizes? — A voz do recém-chegado ecoava como trovões nos montes distantes. — Não vos disse que não comêsseis desta árvore?
Mais dois humanos, vestidos de forma semelhante, se materializaram atrás do Senhor.
— Que tens a dizer Adão? Porque fizeste isto? Vê o que estragaste! — A voz trovejante estava zangada.
— Meu Senhor. — Lamentou-se o humano, pousando a cara no chão em subserviência. — Foi a mulher que me arranjaste, que me levou a fazer isto!
— Eu? — Eva indignou-se, apesar de também imitar a postura de humildade do companheiro. — Parece que que não te estavas a divertir e além do mais, foste tu quem a apanhou!
— Mulher! — Censurou o Senhor.  — És uma má influência para o homem e ele é um fraco, por se deixar guiar por ti! — Depois voltou-se para o outro lado da clareira. — E tu, Lilith, já tentaste corromper Adão antes e, não conseguindo, corrompeste a mulher que arranjei para te substituir.
— Então sempre era verdade que eu era a segunda! — Eva ergueu-se em desafio. — Tanta meiguice, tanto amor pela verdade e esconderam-me uma coisa dessas! Ela bem me avisou que vocês eram uns falsos!
— Falaste com Lilith? — Adão estava em pânico. — Viste-a? Então era para te encontrares com ela que desaparecias?
— Não vos disse que queria aquela criatura longe daqui? — O Senhor censurava agora os dois outros humanos, gémeos indistintos, que chegaram com ele.
— Peço perdão. — Pediu um deles. — Sabíamos que andava por aí e temo-la perseguido, mas não a conseguimos apanhar.
— Mandei-vos matá-la, porque não o fizeram? — Continuava a censura.
— É uma vida humana, nós…
O Senhor ergueu uma mão indicando que não queria ouvir mais nada.
— É assim fácil, não é? — Eva aproximava-se do trio em tom de desafio. — Não faz o que querem, mata-se! Deviam tê-la matado e não o fizeram. E agora? Matam-na e a mim também? Depois arranja-se outra… se calhar desta vez é melhor matar o homem também e começar tudo de novo!
 — Cala-te mulher… — Ameaçou o Senhor erguendo uma mão e vendo-se com um dos gémeos a colocar-se entre eles, com uma expressão infeliz.
A jovem humana tinha metade do tamanho dos três, que pareciam controlar a vida dela e do companheiro, mas mesmo assim enfrentava-os.
— Porque não podíamos comer deste fruto? — Insistiu ela. — Se não eram para comer, porque os puseste aqui, a provocar-nos? Ou era só para te lambuzares sozinho com o prazer de nos mostrar que era só para ti?!? És um invejoso?
— Esta árvore controlava o ambiente em que viveis, é uma estrutura biológica que mantém o equilíbrio da natureza e deixa todos os animais dóceis! — O Senhor estava corado de fúria, enquanto gritava e empurrava o gémeo para o lado. — Tudo está controlado, exceto vós, criaturas ingratas!
— Nós aborrecemo-nos aqui, a inventar coisas para fazer. — Desculpou-se Adão, erguendo-se também. — Esta mulher que trouxeste, é mais dócil que a outra e melhor que ela em muitas coisas, mas é curiosa e está sempre a complicar o que devia ser fácil. Sempre a fazer perguntas em vez de aceitar como as coisas são.
— A mulher que te trouxe… o mundo que vos criei… tudo o que eu fiz foi errado, não foi?  — O cenho franzido do Senhor converteu-se numa máscara de tristeza. — … Eu sou o culpado da vossa curiosidade e insatisfação. Esta mulher é melhor que a outra endemoniada, mas também não serve, não é?
Não se ouvia uma mosca em toda a clareira, quando o Senhor virou as costas a todos e deu uns passos para se afastar, de braços e cabeça caída. Mas, de repente, parou e voltou o rosto novamente furioso.
— Vou resolver o vosso problema! Vão sair deste vale e procurar a vossa própria alimentação e vestir-se, já que gostaram de o fazer. Terão de arrancar o sustento da terra, em vez de o colherem abundante nas árvores. A serpente, esguia e insidiosa como a mulher, que morder-lhe-á o calcanhar que lhe esmagará a cabeça. O rato será o eterno inimigo, que vos invadirá a vida, roubando e estragando os alimentos produzidos a custo, que guardardes. o homem persegui-lo-á e a mulher odiá-lo-á e temê-lo-á. O lobo atacará e comerá os bens do homem e até o próprio homem, se puder. Homem e lobo admirar-se-ão, mas serão inimigos mortais. E agora desapareçam da minha vista! Vão-se embora deste vale, os animais deixarão de vos reconhecer e fugirão de vós, ou atacar-vos-ão.
— Meu Senhor, peço-vos perdão. — Implorou Adão. — Foi tudo por causa da outra, não vedes?
— A outra está condenada. — Disse o Senhor sem se voltar. — Será como um demónio, de quem toda a gente foge e nunca terá paz. Viverá a semear a intriga e a dúvida nos corações puros. 
— Senhor. — Pediu um dos gémeos. — Dê-lhes outra oportunidade.
— Não há mais oportunidades! — Trovejou o interpelado, apontando-lhe o dedo. — E vocês, não se atrevam a aparecer à minha frente, ficarão todos aqui em baixo com eles, guardem-nos e vigiem-nos, já que lhes têm tanto amor. Para que quero trezentos de vocês, se não são capazes de manter uma mulher minúscula fora dos meus domínios. Ponham-nos fora daqui e fechem este vale.
— Mas, Senhor… — O gémeo insistiu. — Que vai fazer?
— Vou-me embora! Vou recomeçar a experiência noutro lado… digam ao Lúcifer que ele ganhou. Começou a ganhar, assim que permiti que me ajudasse a criar a Lilith. — O foco de luz começou a envolver o Senhor que acrescentou ainda, antes de desaparecer: — Fiquem aqui em baixo uns com os outros. Merecem-se!