terça-feira, 2 de junho de 2020

serial killer (segunda parte) narrativa



3.
Ao folhear o jornal, numa destas manhãs, deparei-me com um anúncio, que depois se repetiu nas redes sociais. Dizia isto:

Eu tenho um presente para ti. Não tem embrulho nem lacinho, mas é especial. Este presente não dá para veres, nem tocares, nem para cheirares…mas é verdadeiro. Este presente é o amor que tenho por ti. Minha mulher querida.
Aproveita bem, lembra-te que estarei sempre a teu lado para garantir o teu sorriso, a tua paz, e a tua alegria. Rodeia-te de tudo aquilo que te trás felicidade e grita, ao mundo inteiro, o quanto é bom ser feliz!
Amo-te e sempre te amarei do fundo do meu coração…!!

Estava encontrada a próxima vítima. Tal como os “famosos” – seja isso o que for – anunciavam nas revistas estarem apaixonados pelas mulheres, ou homens, da sua vida, para no momento seguinte proclamarem que se iam divorciar e depois (e já venderam três revistas) que estão apaixonados por uma outra ou outro qualquer. Aqui, era anunciada a morte da mulher pela técnica do lacinho. Era subtil. Quem assim jura, só pode estar prestes a quebrar a promessa.
Mas, o que seria este lacinho? E onde se acoitava a vítima?
O desfecho era previsível. O marido apaixonado para não ver a esposa sofrer haveria de a matar, garantindo-lhe a felicidade para sempre. “Grita ao mundo inteiro” uma vez que não deixaria de aparecer nas televisões e nas notícias.
Mas, quem garantia que a esposa estava a sofrer? Não, ela rejubila com a presença do esposo...pelo menos é o que o marido pensa. Então, toma lá o meu amor que é uma prenda que não passa pelos sentidos, mas tem remédio para todos os possíveis males da alma…porque é verdadeiro!
Tento localizar o autor do anúncio, mas não tenho sucesso no jornal, nem na rede social. Pode ser um perfil falso. Lembram-se que o anúncio da chegada da virgem Maria a Fátima, em 1917, também foi antecedido por um anúncio no jornal “o século”? Em que zona geográfica do país poderá estar o casal? O anúncio no jornal foi colocado em Lisboa, mas isso não quer dizer nada.
José Ramalho fica inquieto com este conhecimento. E se estiver enganado? E se tudo não passar de uma manifestação de amor, levada ao estremo de ser publicitada, apenas para felicidade dos envolvidos? Para ter uma opinião melhor era preciso conhecer os intervenientes, saber do seu passado, avaliar da sua situação presente e desenhar um futuro previsível em olhares, sorrisos, posição das cabeças e do corpo, que muitas vezes dizem mais do que queremos dizer.
Como isso não era possível, era só ficar atento, alguma coisa haveria de surgir. Ou não! E depois, quer num caso, como em outro, em que é que isto contribuía para a relação de causalidade e agregação dos crimes já perpetrados? José Ramalho já não sabia nada. Tinha sido uma estupidez ter-se metido nesta “camisa-de-onze-varas” que não o estava a levar a lado algum. Era tudo fruto da sua imaginação. O mundo corria como sempre correu, com novidades e casos inusitados porque não eram esperados. Apenas isso, só isso!

4.
Lá no espaço tudo corria com normalidade. Os astronautas passaram da capsula em que viajaram para a estação espacial que orbita a terra. Foram recebidos pelos três elementos que lá se encontravam e o mundo viu o encontro com entusiasmo e alegria. Vimos também as fotografias e vídeos da terra, observada do espaço. A turbulência serenou, embora no pais de origem da missão espacial os tumultos racistas e de pilhagem tivessem aumentado significativamente, por causa de um crime ocorrido por um polícia que asfixiou um negro, detido por ter passado um sinal de trânsito que estava vermelho. Um motivo fútil, para a acção executada.
Numa conversa casual com um amigo que vive nos estados Unidos fiquei a saber que uma determinada espécie de abelhas havia desaparecido da face da terra. Era apenas uma curiosidade, mas nunca tinha ouvido falar na abelha azul. Pelos vistos, eu e mais toda a gente, pois havia por ali uma qualquer confusão entre apareceu ou extinguiu-se. O primeiro está a chegar o segundo foi ultimo.
Esta abelha, chamada carpinteira-azul (osmia calaminthae) alimentam-se exclusivamente de flores de magnólia, que se encontram, apenas na Flórido, nos States. Pelo menos de acordo com a informação disponível. Nada existe, no mundo actual, apenas num local, tudo está disseminado e em todo o lado, por vezes ainda em forma incipiente, mas já infestante ou praga a despontar.
Ora, “todos sabemos” que a abelha é um insecto fundamental para a vida no planeta e que a mesma está a ser ameaçada de extinção, quer pelos fogos, pela desmatação do planeta e pelas alterações climáticas que se vão sucedendo, pelas monoculturas que eliminam a paleta de alimentos para a espécie. Há mesmo quem afirme que sem abelhas, a espécie humana perecerá.
E se, esta espécie azul, em vez de estar a desaparecer estivesse a começar e fosse uma transmutação? Uma migração da espécie tradicional, para outra coisa, qualquer, diferente, tal como tem acontecido com a praga das vespas asiáticas, desconhecidas até há bem pouco tempo? E se a sua existência, tomada de ânimo leve como uma espécie que não se conhece e que parece nem existir, estivesse em expansão e desenvolvimento e isso estivesse a afetar a vida no planeta?  Levando a que uma “onda de loucura” se disseminasse e os seres humanos se começassem a matar uns aos outros, por exemplo!? Tudo era possível. Sem abelhas o planeta morre, porque as flores deixam de ser fecundadas, e desaparecem os frutos e extinguem-se as sementes e a seca destruirá as raízes. E que venenos poderiam possuir uma espécie de abelhas com uma cor nunca vista, azul, que não produziam mel, nem cera, nem viviam em colmeias, como as outras abelhas? Sabe-se que as abelhas libertam vapores, pólen que sacodem e odores que espalham no ar, que navegam para os confins do mundo conhecido. Tal como as borboletas que quando batem asas na china, provocam terramotos e queda de viadutos em Portugal. Como aconteceu e foi explicado por engenheiros de engenharia.
Tudo eram hipóteses possíveis. Tão boas como outras quaisquer. Ao ser avistada, a abelha-carpinteira-azul havia desencadeado um conjunto de fenómenos que se materializaram nos crimes constatados. Ao voltar a desaparecer – isto é, ao deixar de ser vista, uma vez que é considerado um inseto “muito solitário” (querendo com isto dizer que nada sabemos sobre ele) – o ambiente tumultuoso que havia sido agitado voltou a estar apaziguado.
Era possível, pensava José Ramalho, pelo menos ao nível ao nível teórico. Era preciso provar a teoria, fazer experiências, comprovar e testar…Falou com investigadores e recorreu a matemáticos. Era possível. Reuniu com ecologistas e com virologistas, com cientistas da natureza e do comportamento da mente humana. Informou-se sobre químicos que podem influenciar a razão e drogas emanadas das abelhas como a apitoxina, e, claro, não chegou a nenhuma conclusão. Era preciso tempo, para ter alguma evidência que pudesse direcionar a investigação para a certeza. Para já encontrar, ou reencontrar a abelha azul, cujas feromonas se sentiam e eram percetíveis na atmosfera, numa análise efectuada por instituto credível, contudo cuja origem não era possível determinar, era urgente e necessário.
A primeira vez que algo de satisfatório foi descoberto, foi quando o cadáver de uma vítima, mostrava um insecto na sua decomposição. Pensaram os peritos tratar-se de uma mosca, ou dos habituais vermes e insectos comuns e habituais na decomposição dos cadáveres, até que alguém reparou que o dito insecto tinha a forma de uma abelha e era de cor azul.
Mas, repararam já tarde, pois tinham, alguém tinha, enxotado a mesma. Repararam porque as fotografias da necrose, feitas de imediato e antes de qualquer intervenção – mesmo que fosse para enxotar uma mosca ou uma abelha que andava por ali – tinha registado a sua presença.
Para onde teria voado? Comprovava-se a existência da abelha-azul. Até hoje quase um mito que chegava por via de investigadores estrangeiros, que apenas mostravam saber pouco sobre a mesma, embora tivessem levantado questões interessantes e curiosas. A abelha-carpinteira-azul estava em Portugal e matava utilizando uma arma diferente das suas congéneres: libertava uma feromona que levava os homens e as mulheres a se suicidarem ou a matarem-se uns aos outros. Estava encontrada a explicação para o surto que havia varrido a sociedade nos últimos tempos.
Existiria sozinha ou em colmeia e em grupo?  Como sempre acontece as ditas autoridades não tomaram em consideração os elementos compilados e não actuaram nem tomaram quaisquer medidas profiláticas. A situação até estava a abrandar a fixar "nos eixos". Um crime por dia, até era um bem que se fazia aos jornais e curiosidades populares sempre ávidas de tragédias.
José Ramalho fecho o caderno onde tomara as suas notas.



domingo, 31 de maio de 2020

Serial Killer (narrativa)



Um conjunto de misteriosos crimes, foram acontecendo, naquele ano de 2020, sem que ninguém relacionasse os mesmos com qualquer facto anormal que pudesse ter dado origem à sequência de tragédias e desastres que todos os dias apareciam nas noticias.
Na prática, ninguém se preocupou em relacionar factos com situações e o desfolhar de crimes, tragédias e violência foi mais um reportório de coincidências sem explicação que se sucederam. Mas, um curioso investigador, de uma universidade privada em Lisboa, sabia que não era assim. Não podia ser assim.
De um momento para o outro, diariamente, quase ao minuto, no relógio do tempo dos acontecimentos, começou uma sequência de casos inusuais e malévolos, sem precedentes. Apresentados como espontâneos, estas situações foram se tornando virais, com influência nos comportamentos dos cidadãos e a sua insinuação prenunciava uma alteração de comportamentos que tinha de ser anotada.
Foi só, naquele dia, em que o Crew Dragon se elevou para o espaço que comecei a entender. Mas vamos aos factos:
Um casal de meia idade é assassinada pelas costas em Vila Real.  Um jovem mata a namorada, com a qual não tinha um relacionamento amoroso, mas uma obsessão doentia. Um rapaz afoga-se a tentar salvar um idoso, numa praia do sul. Crianças deixadas ao abandono por mães que se sentem impotentes e incompetentes para criarem os filhos. Idosos abandonados em lares clandestinos morrem com a pandemia do século que ainda nem acabou de dar os primeiros passos em direcção ao futuro. Um pai mata a filha com pancada e água quente. Um rapper é assaltado e morto com barras de ferro.
Depois o bizarro: um camionista morre ao cair num poço, tendo deixado o motor do camião a trabalhar, o radio ligado e a porta aberta. Tinha saído do  pesado para urinar e caiu num poço ocultado pela vegetação, já que era noite e não distinguiu o sitio onde andou? O que é que isto tem de bizarro? Nada! Nada! Só que é o único que não envolve terceiros, pois ter-se-á tratdo de um acidente.
O que é facto é que estamos na presença de um serial Killer disfarçado, concluiu José Ramalho.
A média diária era assustadora: 1,6 o que configurava um elevado grau de violência. A curva tinha começado devagar, mas em poucos dias acelerava. Quem é que foi morto hoje? Ainda ninguém assassinou ninguém, hoje? Estranho, deve estar a acontecer mas ainda não comunicaram ás autoridades era um sentimento que se generalizava.
Tinha de haver um padrão, um fio a ligar estes diversos, e aparentemente, desligados acontecimentos, já que a sua localização geográfica era dispersa do norte  a sul. Dir-se-ia que o acontecido nem era muito relevante, considerando o que se passa noutros países, pois, mas nós não somos “outros países” nem pela dimensão, nem pela densidade populacional.
Se não estavam relacionados – e nada faria supor que estivessem, até pela diversidade de casos, formas, meios e armas utilizadas: facas, paus, barras de ferro, pistolas, caçadeiras e estrangulamento por asfixia – também nada nos diziam que eram meras ocorrências próprias de uma sociedade que se agita.
Os crimes possuíam as motivações “normais” e próprias de todos os crimes: ciúme, vingança, desespero, ajuste de contas, roubo… mas eram perpetuados com uma frequência que há muito não constavam das estatísticas.
Poder-se-ia dizer que era por causa da divulgação do que se ia passando que gerava um fenómeno de imitação, concluíam alguns psicólogos…era justificação parecia a José Ramalho insuficiente e pobre do ponto de vista lógico e da esfera do bom-senso. Matava-se porque se via os outros matar? Porque as consequências, eram de prisão preventiva e de condenação a vinte anos de cadeia, que passam depressa, como alguns afirmavam?
José Ramalho foi para o terreno e mesmo antes de ter começado a pesquisar o que mais lhe chamou a atenção foi a total ausência de escrúpulos, completo sangue-frio e alheamento pelo praticado. Os autores dos crimes, eram pessoas normais, “boas pessoas” na definição de amigos e vizinhos, mas com total ausência de escrúpulos e prestativos, quer na ajuda ás autoridades, quer nas buscas que se realizavam até encontrar os cadáveres. Pareciam saídos de outro mundo, sem consciência dos actos praticados, dispostos a agradar.
Poderia ser este o padrão que unia os diversos assassinos?
A presunção de total ausência de consequências e impunidade era outra situação que pairava por ali. Um dos assassinos fugira para Inglaterra, mas regressara uma semana depois, como se nada se passasse. Estava imune. Foi detido no aeroporto à chegada. O que o fez pensar que não seria identificado e preso?
Os exemplos sucediam-se e repetiam-se. José Ramalho considerava tudo isto muito estranho….tal como estranho era o nome de uma das localidades onde havia dois mortos: avarenta!
Outra linha em comum era o facto de todos os criminosos, após a fase inicial de alheamento, nem inocentes, nem culpados, se terem entregue sem resistência e confessado de imediato os crimes. Mas que antes o tivessem negado. Havia ali um click, alguma coisa que mudava os comportamentos de um momento para o outro, sendo que alguns faziam tentativas mais ou menos encenadas para se suicidarem à posteriori. Não era bem arrependimento, nem confissão de culpa era mais uma desistência de alguma coisa, de algo, não se percebia o quê.
José Ramalho entrevistou vizinhos, amigos, pessoas próximas e outras que se quiseram juntar e manifestar opinião, e é claro, estas diligencias não acrescentaram nada ao que se sabia. Uns pediam vingança, outros achavam que a distancia entre besta e bestial era ínfima e nem se pronunciavam.
Horas dos crimes, locais dos mesmos, formas de actuação, motivo confesso, forma de dissimulação… alto, aqui havia uma outra constante quase uniforme: todos os cadáveres eram atirados para algum lado sem grandes preocupações em esconder as vitimas, dissimular sim, mas, em nenhum dos casos de maneira a que não fossem encontrados. Atirados ao rio, atirados para detrás de umas moitas, deixados no terreno agrícola onde estavam… era como se se libertassem de um fardo e depois não quisessem saber das consequências.
Não importava que viessem a ser descobertos, e quando isso acontecia, confessavam com inocência e ingenuidade o que fizeram e como fizeram, talvez até com orgulho e displicência, como coisa normal de que não se arrependiam e até se poderiam gabar.
De vez em quando, José Ramalho espreitava para as noticias. Quem seria morto hoje? Tardava. Teria a onda assassina terminado, como acontece nos serial killers? Descobrindo-se os culpados materiais, faltaria descobrir os culpados morais, instigatórios ou propagadores. Sim, esses escapariam sempre.
O Tribunal de Monsanto absolvia o presidente de um clube de futebol que mandara bater nos jogadores. Fora um equívoco. Uma erro de percepção mutua como o ministro das finanças explicava quando mudava o nome às coisas e afirmava que isto era aquilo que dizia ser e não o que os outros afirmavam que fosse, por comparação ou teimosia. A actual dgs era um acrónimo da antiga: uma da saúde, outra da segurança, afinal ambas tratavam da saúde aos portugueses. A primeira com porrada, a segunda com instruções de vida, que mudavam a cada vinte e quatro horas, criando estupefação e desorientação, que iam no caminho certo para uma possível resposta ao que estava a acontecer.
E o que é que estava a acontecer? As pessoas, algumas pessoas andavam a matar-se umas à s outras. José Ramalho constactava, sem surpresa, que o antigo director geral da saúde, fora reformado para  presidente de um hospital das forças armadas e que nessas novas funções de gestão, matava a qualidade dos serviços e a eficiência do mencionado Hospital. Tratava-se de uma assassinato, como outro qualquer. Porque é que não deixavam os reformados em paz, já não bastava o que passava nos lares e nos serviços sociais de apoio às famílias, violência doméstica e maus tratos a menores?
A grande desidério da sociedade que emergia, desta pandemia de “coisas” era o bem-estar animal. Nunca tantos se preocuparam com o bem-estar dos animais. E fazem muito bem. Nós os que não temos animais de estimação é que somos uma bestas. Mas estamo-nos a afastar das investigações de José Ramalho.
Em frente ao computador José Ramalho fazia simulações, compunha gráficos, analisava coincidências e observava as diversas curvas de tempo entre o acto praticado, a sua informação para as autoridades, o tempo de descoberta dos assassinos, a negação, a confissão…tudo numa paleta de factos que não podiam ser contestados ou ignorados, porque tinham acontecido e eram reais.
Mas, hoje, estando a nave espacial a chegar à estação orbital, situada a quatrocentos quilómetros da terra, nada acontecia. Era apenas 400 Km. Uma distancia ínfima se comparada com as distancias que se percorrem numa qualquer viagem aqui no planeta. E se…? E se,  Alguém na estação espacial estivesse a “puxar os cordelinhos”? Era possível! Haveria lá alguma mulher? As mulheres são especialistas em manipulação. Não, não havia.
Mas, que pensamento absurdo. As mulheres eram a melhor coisa do universo. Matava-se por causa de uma mulher, mas as mulheres eram deusas. Até havia um festival denominado “bona Bea” que apenas era constituído por mulheres. Daí até serem elas a causa dos crimes ia uma distancia maior do que da terra à estação espacial. Foi uma recaída na investigação – concluiu José Ramalho. Temos de ser sérios. E voltou a mergulhar nas suas reflexões.

(continua…e se não continuar é porque não se encontrou culpado)



Carlos Arinto

sexta-feira, 29 de maio de 2020

O susto



Foi terrível. Ainda hoje não sei como escapei com vida para contar como foi. Tudo começou com aquela impulsão pelo turismo, que depois se transforma em saturação. Viajar, viajar, viajar era uma rotina. Nada de novo, íamos ver o que já conhecíamos da escola, da universidade, dos livros e da internet, mas que agora “cheirávamos” ao vivo.
Casa viagem sempre foi uma aventura. Ao fim de algum tempo começamos a querer coisas diferentes, coisas novas, situações arriscadas ou então, no inverso, ficarmos afastados das multidões e dos grandes aglomerados de pessoas que constituem a decoração deste planeta. O turismo, o viajar e o conhecer outros lugares é um vício como outro qualquer.
A nossa maior emoção, pela negativa, foi visitar Auschwitz. Pela positiva Veneza. Fora da Europa o Japão e alguns países africanos deixaram-nos com o gosto amargo de conhecermos pouco do muito que haveria a explorar. O Brasil e os Estados Unidos deixaram-nos indiferentes. Fomos a muito lado e esquecemo-nos – ou não tivemos oportunidade de ir a outros. Tal como disse, numa qualquer fase do percurso ficámos cansados, saturados a desejar “mudar de rumo” embora sem nunca desistir de viajar.
Passávamos o ano a juntar dinheiro para as viagens, que depois fazíamos durante dois ou três meses, sem querer saber de clientes ou evolução dos negócios. Vivíamos satisfeitos e a planear, sempre, novas visitas a este ou aquele lugar do mundo, fossem locais históricos, terras desertas, curiosidades de formas de vida, de hábitos alimentares ou exéresse de desenvolvimentos singulares – como a India, com as suas castas a Coreia do Norte, com o seu secretismo social e politico, a existência das grandes regiões russas inóspitas ou o mais tribal local da Amazónia – todos constavam do nosso plano de viagens. Em muitos estivemos.
África seduzia-nos, mas as ilhas do Pacifico também nos aliciavam. E até mesmo as grandes zonas desertas e geladas de ambas as calotas, eram para nós possibilidades de visita a programar e a concretizar, num futuro que não queríamos longínquo. Apesar da idade, continuávamos a recusar as viagens em grupo, e éramos nós, os únicos responsáveis pela nossas vidas, conhecimentos, relações e aventuras que ao longo da vida havíamos feito e continuávamos a realizar. Talvez, agora, com mais ponderação e alguma cautela, mas indo a lugares que muitos não ousavam.
Naquele ano, foi sem surpresa que decidimos ir ao Alasca, uma terra, sem ninguém, mas com muitas particularidades interessantes. Apetecia-nos descansar, percorrer a pé, longas distancia, perceber o que esta terra, como parte integrante de um País, tinha de curioso. Desde logo, porque toda a população tinha um “rendimento estatal” anual garantido, com origem na exploração dos recursos naturais existentes. Depois, porque sendo terra enorme, era uma aproximação ao termo Glacial, que queríamos explorar em expedição futura, quer a norte quer a sul, dos pinguins aos ursos polares.
Sem arrebatações queríamos dois meses de aprendizagem da cultura autóctone e das pegadas dos antigos: orientais, dinamarqueses e russos. Viver na serenidade de lagos, montanhas, parques naturais e calotes de gelo, observando um dos últimos redutos da biodiversidade ameaçada pelas alterações climáticas.
Viajar pode ser fazer história que ainda não aconteceu.
Tratava-se, portanto, de uma pausa na nossa compulsão; uma esquirola na arte de viajar, porém…

Chagámos ao Alasca num dia de sol. Desde já aviso que não me peçam para dizer onde estou, onde fomos, como é o nome dos lugares que visitámos, porque tudo aquilo é impronunciável. A língua oficial é o inglês, mas deve ser um inglês muito especial porque não “pescávamos” uma frase, nem entendiamos nada quando falávamos com as pessoas. Habituados às diferentes línguas, falajares e pronuncias, bem como alfabetos e sistemas de comunicação sofisticados ou apenas tribais, não tivemos dificuldade em nos fazermos entender e explicar o que queríamos.
Claro que o Alasca é Estados Unidos, depois que o secretário de Estado William H. Seward  comprou aquele território à Rússia em 1867. Mas um território que se diferencia de todo o restante território estadunidense.
O turismo, por aqui é rudimentar, senão inexistente. Tínhamos visto alguns documentários sobre formas de vida e técnicas de sobrevivência em canais por cabo e estávamos preparados. Aliás era isso que nos atraia ali. Viver de acordo com a natureza, em contacto com o meio agreste e indómito, conhecer espécies animais e da flora e fotografar tudo o que pudesse ser considerado olímpico e esteticamente belo, para o comum dos mortais, que vivem na balburdia das cidades. Sim, ganhávamos dinheiro com esta actividade, filmando, desenhando, fotografando e escrevendo sobre o que víamos. A literatura de viagens era uma realidade com compradores.
Éramos entrevistados para Portugal e regularmente apareciam cronicas nos jornais e revistas portuguesas. Outros como nós possuíam o impulso do turismo, do viajar do ir…

Ficámos numa casa de montanha. Estava frio e tudo em redor era gelo e penedos. Saímos para explorar os arredores e ao regressar já noite pusemo-nos a ler um livro, que havíamos trazido para as horas mornas do recolhimento, junto à lareira da “cabana”. Tínhamos fotografado diversas paisagens agrestes e uma em particular tinha-nos chamado a atenção: um conjunto de verdes que se espalhavam pelos campos brancos, como bolas felpudas. Pensamos que se trata-se de algum animal da região, tipo porco-espinho ou rato, mas…  - constatámos com surpresa – que estas bolas eram vegetais compostos de musgo e areia. Existiam estáticas e em grande quantidade e depois de as termos observado nunca mais pensamos nelas.
Porém, nessa noite, acordei a sentir que estava a ser espiado. Algo ou alguma coisa me espreitava da janela. Afastei a cortina de supetão e uma dessas bolas lá estava, agarrada à vidraça. Estaria a olhar para mim? Não tinha olhos, que as bolas, tipo esponja não possuem cabeça, nem aquilo a que estamos habituados a chamar órgãos, sejam eles narizes, olhos ou bocas.  Não sendo um vegetal, tínhamos tido oportunidade de o confirmar quando havíamos pegado em algumas para analisar a sua constituição, desfez-se em poeira e limbo voando até cair no chão. Outras mais consistentes mantinham-se na sua forma oval com pequenos sedimentos incorporados.
Voltei para a cama, mas ao fim de alguns minutos constatei que em vez de uma já havia várias na janela.
Fui acordar a minha companheira para lhe relatar o que estava a suceder. Decidimos sair do quarto e ir observar o fenómeno na exterior. A porta estava trancada. Empurrada, com esforço, abriu-se finalmente revelando algumas bolas felpudas no chão e nos gonzos a bloquearem a sua rotação.
Não tínhamos a quem perguntar nada, e fomos até ao exterior, numa noite gelada, feita de luz amarelada e algumas nuvens salpicadas de tons cinzentos. Um batalhão de bolas estava li ao pé, enquanto outras, muitas, se aproximavam, vindas do sul, e de todos os outros pontos cardeais. O que é que se passava?
Como era possível estes seres inanimados e sem vida deslocarem-se e até estarem a ameaçar-nos com a sua presença, criando uma situação de pânico, por não sabermos como reagir? Fomos ao quarto buscar equipamento mais adequado para nos agasalharmos e para estarmos na rua – incluindo a camara de filmar, luvas, barrete e camisola de lã…sim, esqueci-me dos sapatos ou das botas fomos descalços - e tropecei num tufo, à entrada da sala, estatelando-me no chão. Felizmente nada de grave, apenas uma queda. Senti uma “coisa fofa” a saltar para cima de mim. Sacudi-a com uma palmada e agarrando na mão da minha companheira fugimos dali.
Escondemo-nos dentro da viatura “quatro vezes quatro” que tínhamos alugado, cujo motor não quis pegar, talvez devido ao frio ( ou por estar pejado de fofinhos felpudos…pensamos depois) e telefonámos, em desespero para o numero de emergência.
Uma hora depois fomos socorridos – quando já não conseguíamos aguentar o frio – estando a viatura totalmente coberta por estes musgos verdes que faziam tapete em cima de nós, não nos deixando ver para fora nada.
Para sermos verdadeiros e justos, foram elas que nos salvaram a vida, pois aqueceram o interior do carro-. De contrário teríamos perecido por exaustão e Hipotermia.
Os nossos “salvadores” riram-se muito.
- É normal. Sim estes tufos verdes de musgo movimentam-se deslizando no gelo e, empurrados  pelo do vento, escorregam com facilidade.
- São constituídos por areias, cascalhos, detritos e ervas, para além dos musgos rasteiros e rolam como qualquer calhau ou rocha nas ribeiras. Por isso é que possuem este aspeto arredondado, ovalado ou em semicircunferência.
Não ganhámos para o susto. Foi parvoíce termos abandonado a casa a meio da noite, mas estávamos convencidos de que éramos perseguidos e que “aquelas coisas” estavam ali para nos matarem, sufocarem ou exterminar. Porque razão? desconhecíamos. Teríamos feito algo de que não haviam gostado. Ou seria possível que estes seres inanimados e compostos por minerais, e vegetais, fossem carnívoros? Nunca o saberíamos.
Os guardas consideraram isso, um disparate e uma tonteria…coisa de turistas que não conheciam a formas geológicas da região e que se assustavam sem razão, com fenómenos normais. Não, nunca havia acontecido tal coisa. A explicação estava dada. A deslocação destas pepitas de feltro estava estudada desde há muitos anos. Por vezes não se mexiam e cresciam, aumentando de volume, no mesmo sítio onde se formavam. Outras, movimentavam-se e deslocavam-se, sempre em grupo como bando (disseram-nos) desaparecendo para depois voltarem a surgir quando menos se esperava.

No alto da estepe, uma bola maior do que as outras observava. Agitou-se com o vento e o luar começou a desaparecer para dar lugar à madrugada. As bolas infinitas, retirarem-se como que obedecendo a uma ordem. Não estava vento e o gelo brilhava.

Carlos Arinto

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A entrevista



P- Os pobres não têm dinheiro?
R- È capaz de ser verdade... Os Tribunais é que têm uma noção errada do que é bem ou mal. Quem não tem dinheiro vai preso que é uma forma de viver descansado, com tudo pago. Não ter dinheiro é um crime de lesa-humanidade. deveria estar consagrado, naquela coisa...como é que chama...Conceição, é isso!

P- Já foi preso?
R-  Vou muitas vezes a Espanha e a Paris.

P- O que é que vai fazer a Paris?
R- Beber uma cerveja.

P- E a Espanha?
R- Outra. É mais barato que em Portugal e ainda oferecem umas tapas para acompanhar.

P- Lê muito?
R- Só os horóscopos. Se for bom, está decidido, não é preciso fazer nada, se for mau é estar quieto e esperar que  passe.

P- Porque é que escreve?
R- Eu não escrevo, peço para me escreverem. Eu dito o texto e depois leio e fico todo contente. Muitas vezes concluo: o tipo que escreveu isto deve ser um gajo porreiro.

P- É a favor dos gajos porreiros?
R- Sim. Sim. Desde que tenham boa imagem.

P- Acha que há vida para além da morte?
R- Não tenho dúvidas. É uma vida pacata e sossegada, mas muito reciclada, com constantes volúpias e gestos épicos. A História é isso mesmo: a vida depois da morte.

P- Como é que ganha a vida?
R- Olhe para já estamos empatados, mas é fundamentalmente no jogo. Faço pólo aquático e cross selling mas os meus banqueiros é que tratam disso, não estou para me chatear.

P- Por falar em empate, gosta de futebol?
R- Claro. É viciante. No futebol, como nas ciências, na matemática ou na ecologia somos uns campeões, embora por vezes o árbitro…

P- Ok.Ok. Já percebi que não vai responder?
R- Quem eu? Estou aqui é para colaborar.

P- Porque é que não edita?
R- Não quero construir uma nova Igreja. Os seguidores aborrecem-me. E depois ainda eram os outros a tirar proveito dos meus escritos? Olhe, Jesus Cristo não escreveu nada e no entanto…

P- No entanto o quê?
R- Nada. Nada. Até pode ser que tenha razão devia mandar fazer um documentário com as ideias do momento, mas depois houve-se cada disparate, e o orçamento é tão grande … e tem de se pagar tantos subornos, que desisto. Prefiro a pacatez rural. As cidades já deram o que tinham a dar.

P- Deram o quê?
R- Confusão. Agora é tempo de marear. Sabe aqueles dias todos à beira da piscina…

P- E isso não é chato?
R- Depende. Quando o barco afunda até é divertido.

P- Diverte-se com a desgraça dos outros?
R- Confesso que por vezes  é divertido. Serve para passar o tempo.

P- Há um Tempo?
R- Certamente que sim. Chego sempre a horas. Nunca me atraso num compromisso.

P- Isso faz de si mais novo ou mais velho?
R- Ambas as coisas. Os tempos são de mistificação, de segredos, de revelações.

P- Quer dizer que há tempo para tudo?
R- Claro. É uma questão de organização Há coisas que demoram muito tempo.

P- Tais como?
R- As pessoas deste País. Vivem aqui há tanto tempo que já perderam a noção de quem são, do que fazem aqui. Habituaram-se.

P- O tempo esgota-se?
R- Não! Ainda vamos a tempo. Temos muito tempo.

P- O tempo é uma obsessão?
R- Quando chove sim, outras vezes não. Felizmente faz muito sol em Portugal e a obsessão são as praias, o bronze e claro…falar do tempo.

P- Tem outras obsessões?
R- Claro. Com os medicamentos. Os portugueses gostam muito de medicamentos. Fazem colecção. Falam das idas ao médico e ao analista, com os amigos. A doença é um tema de cultura e de relação social muito interessante em Portugal.

P- E que mais?
R- Depois vem a gastronomia. Ter a mesa farta é uma preocupação. Comer, beber muito. É o tempo dos insaciáveis. Uma reminiscência dos abades.

P- E isso é louvável?
R- Claro, como ter o carro de último modelo, vestir roupas de marca, ir ao cabeleireiro, fazer ginástica, ver televisão. O português é muito orgulhoso da sua identidade, tanto que a perde em qualquer esquina, mas a recupera facilmente com uma ida ao supermercado. Os gadgets são a última peregrinação.

P- Isso faz dos portugueses melhores?
R- Nem melhores nem piores. São um povozinho, muito mesquinho, muito avarento, muito ciumento e cínico. Disfarça-se com “bons costumes” mas é muito truculento. Gosta de falar alto e de ser ouvido. Quando chega a hora de trabalhar mete baixa. Fica em casa ...confinado (disse uma piada, reparou?)

P- Mas não serão todos assim?
R- Claro que não. É um disfarce. Todos têm livros do “Circulo de Leitores” em casa. Ouvem muita musica, vão ópera, a exposições, compram ecrãs digitais que espalham pela casa, lêem jornais e adoram a net e os telemóveis. São uns fala barato, porque dinheiro não há, mas em prestações e dividas, lá vão sobrevivendo com conforto e descrição.
( se ler isto daqui a vinte anos, vai verificar que continua a ser verdade)

P- Isso quer dizer o quê?
R- Que os portugueses são dos povos mais antigos e evoluídos da Europa. Descobriram que sem trabalho se consegue tudo. Até o amor.

P- O amor?
R- Sim. As raparigas e os rapazes ainda não acabaram a escolaridade obrigatória e já engravidaram. Uns com a seta para cima, os outros com a cruz para baixo. São exímios em viver de papo para o ar, de perna aberta, se quiser. (e isto é Gil Vicente a falar, escreva aí) O amor é outra vertente fundamental para o espírito lusitano. Desde Viriato que somos nós a povoar o Mundo.

P- Vai a correr para algum lado?
R- Não. Aliás foi por causa disso que deixei de andar em transportes públicos.

P- A que horas se deita?
R- Nisso sou como os alentejanos. Logo depois do levantar, sabe, acordo, quase sempre, muito cansado.

P- E levanta-se à hora de deitar?

R- Nem sempre Por vezes, muitas vezes, gosto de lhe trocar as voltas. Só para saborear uns pezinhos de porco de coentrada é que era capaz de não me deitar .Já experimentei comer na cama, mas não dá gozo nenhum. Prefiro encher o teclado do computador com migalhas e molho de escabeche.

E esta foi a entrevista possível. Sejam felizes voltamos na próxima semana com mais entrevistas paranóicas., neste programa paranormal para pessoas com sanidade comprovada.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Quebranto



Quebranto
-Dizem que tens quebranto.
- Sim sinto-me estranha…
- Logo, à noitinha, vem ter comigo tratamos disso. Mas não digas nada a ninguém.
A troca de palavras foi rápida, efetuada disfarçadamente, como os “agentes secretos” fazem nos filmes, quase sem mexer os lábios, enquanto uma e outra admiravam a qualidade da fruta exposta na banca e a frescura das verduras.
O feirante do mercado não deu por que as duas clientes tivessem trocado qualquer palavra e até o espião, colocado no varandim, onde abarcava toda a praça teve dúvidas de que aquelas duas se conhecessem.
Sem ser um dia de enchente, o mercado estava cheio e a azáfama era muita. Ali tudo havia: ovos, galinhas, queijos, verduras, frutas, peixe, frutos secos e leguminosas. As carnes, estavam noutro lado, numa espécie de bancada de talhante, açougue ou “butcher” que hoje o inglês era fundamental para fazer progredir o negócio.
Em frente erguia-se a fumarada dos frangos em assadura e os feirantes do bric-a-brac e dos pózinhos mágicos para todas as medicinas e prazeres gastronómicos. De há uns tempos para cá também uma pequena banca, junto aos comerciantes de flores e árvores para plantar, tinha exposto de forma discreta uma panóplia de artefactos sexuais. Ao lado uma tenda com capas para telemóveis e mais à frente um conjunto de vestimentas “último modelo” do mais vintage possível, que era atração de curiosidade e venda muito superior a quaisquer outros comerciantes que por ali faziam o seu negócio.
Chapéus, bonés e carapuços.
Mariazinha andava acabrunhada. Sentia-se mal. Tinha humores, não estava bem… Hoje, estes sintomas são tratados pela psicologia, pelos médicos e pelas tertúlias de anónimos confrades, mas Mariazinha era reservada, tímida e não queria que soubessem da sua vida.
Ir ao médico é como ir a Deus, sabia… o segredo do confessionário, a confidencialidade entre o advogado e o cliente, a intimidade do clinico e a sua reserva de privacidade. Mas, Mariazinha tinha medo. Não era por nada, era porque sim.
Por isso estranhou quando aquela desconhecida a abordou, naquela manhã, ali na praça. Bem, não era uma desconhecida, era a sua vizinha de rua, que tantas vezes via a passar, para cima ou para baixo e com a qual – uma vez por outra – já tinha trocado um boa tarde, ou um bom dia. Não mais do que isso.
Dizem? Quem diz? Impossível, alguém dizer, não tivera conversa sobre este assunto com ninguém. Seria assim tão evidente pela sua cara, pelo seu corpo, pelas suas posturas? Não, era impossível. E depois, quebranto? Que palavra tão estranha, ainda que fosse problema, feitiço ou diabo no corpo, ainda podia aceitar, mas, quebranto? Era termo que já ouvira dizer, mas nem sabia bem o que significava. E hoje essas coisas já não se usam. Tal como os fatos “vintage” com as calças à boca de sino, as camisolas de gola alta e os vestidos floridos…ninguém usa.
Não acontecera nada de especial, recordou memorizando factos recentes. Não tinha namorado, vivia com os pais e tinha uma vida normal de quem trabalhava e se divertia com os amigos, como todos faziam e apreciavam, sempre que podia e tinha dinheiro para isso. Beber “um copo” ir à discoteca, dançar, passear na praia ao fim de semana, fazer amigos e colocar mensagens nas redes sociais, comentando noticias ou trocando opiniões com outras pessoas. Haveria alguém que lhe poderia querer mal?
Lembrou-se de uns comentários mais azedos nas redes sociais, que trocara com um parvalhão chamado Veiga e de um tal de Luís que a insultara a propósito já nem se lembrava do quê…mas que disparate. O que é que isto tinha a ver?...
O que é facto é que de alguns dias para cá andava sem apetite, custava-lhe a pensar e até sentia dores no corpo. Podia ser gripe, mas não tinha febre e tomara um ben-u-ron logo que os sintomas apareceram, que foi impotente para fazer diminuir o mal-estar. Estava desconcentrada, não tinha vontade para nada e tudo lhe sabia a azedo, até o ar que respirava.
E porque é que respondera à sua vizinha? O mais lógico seria ter ignorado a observação e fazer de conta que não ouvia, que não percebia e nada ter dito. Mas dissera, e bem, agora tinha duas opções: ignorar aquilo ou ir a casa da vizinha logo à noite. Como é que ela se chama? Olha, nem sabia!
Depois do jantar colocou um xaile pelas costa, como agasalho, que os fins de tarde estavam frios, embora o dia fosse abafado e quente e, certificando-se de que não era observada e que ninguém a via, tocou à campainha da porta da vizinha. Tocou, não! porque mal se aproximava, a porta se abriu e lhe franqueou a entrada, sem necessidade de  espera ou cumprimentos supérfluos e desnecessários.
- Sente-se aqui. Disse-lhe. Chamo-me Mia e vou ajudá-la. Percebi que necessita de ajuda, não me pergunte como percebi, pois são coisas minhas. Não lhe levo qualquer valor pelo “trabalho”, porque existe muita maldade no mundo e hoje com a internet, o perigo é pandémico.
- Mas, vamos por partes, para já vamos verificar se está realmente possuída, se alguém a enfeitiçou ou lhe quer mal.
Numa mesa estava um prato fundo cheio de água, ao lado um galheteiro com azeite e uma pequena taça já com um pouco do liquido verde escuro da oliva.
- Sente-se aqui. Não tenha medo, são rezas e saberes antigos, próprios do sítio, lá de onde vim.
Mariazinha observa tudo em redor. A sala tem pouca luz e os móveis são escassos. Quadros estranhos nas paredes, uma televisão ao fundo, desligada. Aceita o convite e senta-se junta da mesa. Mia senta-se também um pouco á esquerda e após um curto silêncio diz:
- Reze comigo:  Deus te viu/Deus te criou/Deus te livre/ De quem para ti mal olhou. Em nome do pai, do filho e do espírito santo/ Virgem do pranto/ Tirai este quebranto.
Enquanto reza faça o sinal da cruz. Outra vez. Mais uma…tem de ser por três vezes. Agora – despeja um pouco de azeite na água – coloque aqui o seu dedo. Molhe o dedo na tacinha com azeite, depois deixe cair cinco pingos na água. Nem mais nem menos: cinco.
O azeite espalhou-se.
- Está a ver, o azeite deveria ficar em pequena bolha, sem se espalhar, duas ou três auréolas, se for muito, mas nunca espalhado por toda a água do prato. Temos de fazer o tratamento.
Mariazinha sentiu um estremeção.
- Não tenha medo. É rápido e não custa nada. Esse frémito que sentiu é já um sinal de que algo vai acontecer.
- Vamos continuar esta reza, até que o azeite fique concentrado em círculos. Quando isso acontecer o quebranto foi quebrado.
Repetiram a lengalenga, por duas ,três… vinte vezes e ao fim desse tempo o azeite deixou de estar espalhado pela água e se uniu num botão de rosa o meio do prato. Várias camadas, na vertical, numa única circunferência espessa.
- Minha querida, vá em paz. Os malvados foram afastados. Foram esconjurados.
Mariazinha sentia-se muito melhor, era um facto, nem queria acreditar. Saiu quase sem dizer obrigado – pelo menos não se lembrava de ter agradecido -  mas fá-lo-ia noutro dia, logo que a oportunidade surgisse…e se não surgisse procurá-la-ia para lhe demonstrar o seu reconhecimento, durasse a sensação de bem estar e regresso à normalidade o tempo suficiente para isso.
O que lhe havia de ter acontecido? Que coisa? e isto porquê? Por causa de opiniões, de conceitos, de confronto de ideias? Que absurdo, mas o  mundo estava absurdo. Cada um julgava-se o “dono disto tudo” e não admitia contraditório. Dizem que era por causa das alterações climáticas, por causa da poluição do planeta. Por cauda da crise financeira que galopava, do aumento dos impostos das dificuldades…mas diz-se tanta coisa!
Afinal todos dizem isso e o seu contrário, mas lá que havia gente muito estúpida era verdade. E as redes sociais tinham vindo exacerbar estes sentimentos negativos. Se contasse isto a alguém o mais provável era dizerem-lhe “arranja um namorado que isso passa” mas Mariazinha sabia que não era isso. Por isso fazia segredo. Lidar com forças ocultas não era a sua especialidade. Ainda bem que encontrara uma pessoas que a compreendera e a ajudara.
Aquela amiga fora realmente sua amiga. Não uma “amiga” do facebook, que é onde agora as pessoas criam relações virtuais, onde se tem conta, sem ser conta bancária, onde se vive a vida que os outros vivem e se morre com a ilusão da realidade. No dia seguinte cruzou-se com Bia na rua e sorriram uma para a outra. Não trocaram uma frase, nem um bom dia. Parecia que se entendiam sem falar, apenas com o pensamento.
Todo o mal desaparecera.
Mariazinha leu num jornal, exposto na montra de uma papelaria que num desastre de automóvel que se despistara sem razão, o condutor não resistira aos ferimentos e tivera morte imediata: chamava-se Carlos Veiga. Era um empresário importante e por isso merecia honras de primeira página. Lá dentro – porque num impulso comprara o jornal – dizia-se que um chefe da restauração estava desaparecido e não era visto há três dias, tendo sido comunicado à polícia que deixara o telemóvel, a carteira e os documentos de identificação em casa. Chamava-se, ou melhor chama-se, porque desaparecido não é morto, Luís.
Olha, espero que tenha mais sorte do que aquele rapper, todo tatuado, que mataram ou aquele cantor pimba que desaparecera nas falésias de Peniche. Os nomes não lhe diziam nada. Havia uma leve parecença com outros nomes, mas eram nomes vulgares, então porque estava a ler estas noticias que eram banais e que, quase todos os dias, acontecem. Coitado do homem. Haveria de aparecer, sem dúvida, talvez tivesse fugido com a amante. Sim, #vai ficar tudo bem#. Ficou!

Carlos Arinto

quarta-feira, 6 de maio de 2020

A decisão


Tinha que tomar uma decisão: apertar o botão ou não?
O tempo passava e não me conseguia decidir. A decisão era de responsabilidade. As consequências poderiam ser nefastas ou benfazejas, mas eram futuras e ao tentar adivinhar quais as que prevaleceriam, não encontrava resposta.
Pesava sobre mim um imenso fardo, que cada vez me encurvava mais, deixando-me com dores nas costas e os ombros aflitos, quase em arco até ao chão.
Por algumas vezes estiquei o dedo, convencido de que tinha tomado a decisão certa e irrevogável. Mas no último momento arrependi-me e recuei. Tentei ignorar o assunto, mas a necessidade de fazer ou não fazer algo sempre regressava como um tormento ou uma maldição.
Sabe-se que a melhor forma para uma decisão consciente é deixar o tempo passar. Isso alivia e solidifica todas as decisões mesmo, quando  estarmos a pensar nelas, em permanência. Poderia, um dia, se assim quisesse “voltar atrás” e reverter a decisão a tomar, seja ela qual fosse? É provável que não!
Uma decisão uma vez tomada segue o seu curso e mesmo que se reconstrua todo o que foi destruído, será outra coisa que nasce daí, nunca o que hoje é, e nada ficará igual.
Amores antigos, familiares que já faleceram, situações vividas, negócios realizados ou pensados, nenhum botão – alavanca ou interruptor que liga e desliga – faz o que passou regressar, mas também não constrói, inevitavelmente, coisas boas. Pode accionar o caos e a destruição ampliando o que julgávamos curado e ultrapassado, como uma doença que regressa, depois de meses de tratamento, quando já tinhamos a certeza de a ter vencido.
Basta-me um simples aproximar do dedo indicador, e pressionar levemente ou ignorar os conselhos, as indicações e a tentação e esquecer. Sim, esquecer seria uma boa solução.

Abro o teclado do tablet e procuro a página correcta. Sem hesitar carrego na tecla escolhida e abre-se a tal circunferência que simboliza um botão e sem pensar, de novo, ou melhor, ou ter tempo para recuar...primo o screen. A mensagem aparece-me clara: adicionar amigo.
Está feito. Resta-me aguardar as consequências.

domingo, 26 de abril de 2020

O canguru e o cachalote



Descobri que o meu vizinho tem em casa um canguru. Salta, salta e salta sem nunca acabar, de manhã, à tarde e à noite, com breves intervalos para descansar. Sim, também poderia ser um boneco, daqueles do anúncio que duram e duram e duram e quando todos já se aquietaram continua a funcionar, mas é um canguru, eu já espreitei e vi.
E porque é que não haveria ter um canguru em casa? Há alguma lei que o proíba? Não sei, eu não sou jurista nem tenho um código Penal à mão para saber…sei apenas que ele não me deixa descansado, pois pode - um dia – soltar-se e –quero ver – depois – quem o vai apanhar.
Instalei um posto de observação, da janela da minha varanda, com linha de tiro para casa do vizinho, desimpedida de obstáculos, e montei uma carabina de caça grossa. Acoitei-me por detrás da arma e ao fim de poucos minutos já tinha alvo para acertar.
Mas, o bicho deve ter sete vidas pois já lhe acertei seis vezes e continua a pular. Sim, como já desconfiaram a minha carabina é daquelas da feira popular (quando havia feira popular) que atira aos patos, aos pratos e aos bonecos que correm numa fiada de baloiço instável. Eu era lá capaz de matar o bichinho!?!
E o canguru lá vai demolindo a casa, hoje um bocadinho, amanhã outro até que tudo um dia, colapse.
Como sou bom vizinho, comecei já a fazer planos para contentar o meu vizinho, quando a casa desabar: vou-lhe oferecer um aquário com um cachalote. É o ideal. Basta passar a esfregona e limpar os salpicos que o mamífero sacode do aquário. Pensei em algo menos virulento, como uma couve ou uma alface, mas eu acho que o meu vizinho gosta de companhia que se comportem como metrônomos desafinados. O que contradiz o princípio e a base de um qualquer metrônomo que se preze. Por isso um cachalote vai-lhe assentar como uma luva. Não olho a despesas.
Se o cachalote o comer, assim tipo Moby Dick..olhe..azar! A minha intenção é que o criador seja igual à coisa criada e vice-versa, naquela lengalenga de que a paz é inimiga da tranquilidade e que só apreciamos verdadeiramente aquilo que não temos, como qualquer filósofo de trazer por casa vos explica após um curso rápido de confinamento saudável e pratica religiosa positiva.
O meu vizinho, às vezes sai em manada com o canguru para a rua. É fácil seguir as suas pegadas: galhos partidos, baldes entornados, rodeiras aqui e ali como buracos de dinossauros, algumas caganitas ( o meu curso de pisteiro ensinou-me a reconhecer e identificar tudo isto) bocados de pelo agarrados aos matos.
O cachalote já me confidenciou: “deixa-o comigo, espero que saiba nadar”…quero ver como isto vai acabar.
Alguma noticia ou a reportar? – Não senhor guarda, tudo normal!

Carlos Arinto